Novo, mas nem tanto

Eu tinha 19 anos quando criei o Meio Desligado. Pelo que me lembro, um dos motivos foi a ausência de representação na mídia de artistas que eu considerava relevantes. Ou talvez isso seja o motivo que construí ao longo do tempo para tentar explicar o passado. Junto da memória, a história muda.

Mantive o blog cataléptico durante a maior parte da década passada e a realidade é que pouca coisa marcante foi publicada nele de 2012 em diante. Não por acaso, é o período que marca a criação da minha produtora e um desenvolvimento da minha vida pessoal e profissional. Sair da casa dos pais, mudar de cidade, não ter chefe. Aquela inconstância típica do millennial pj precarizado.

A possibilidade de eventualmente poder publicar uma coisa ou outra que prestasse, além do valor sentimental do blog pra mim, o mantiveram vivo. Percebi que muita coisa mudou e influenciou no seu abandono. Funcionava no início porque, além de terapêutico (as coisas sobre as quais escrevi também dizem sobre mim), era prazeroso. E com o tempo isso se perdeu. Desde o início da crise política no Brasil, em 2013, meu interesse em escrever sobre música se tornou cada vez menor. Um desânimo crescente se abatia não só sobre mim, mas sobre as pessoas ao meu redor. Mesmo longe de um cenário melhor (pelo contrário), às vezes é preciso mudar pra conseguir seguir em frente. Criar algum estímulo pra sair da cama enquanto o mundo definha. Sem cobrança, sem querer agradar aos outros.

Certa vez um jornalista disse que o Meio Desligado era “um experimento de linguagem”. Achei chique, mas antes de qualquer coisa, era um foda-se para a opinião alheia e convenções. O que me remete à ideia de questionar autoridades e como isso é muito mais abrangente do que o lugar-comum de se opor ao poder do Estado. Questionar autoridade é também questionar as forças que legitimam valores e convenções sociais. Desculpa mas vou fazer uma citação do Timothy Leary: “Para pensar por si mesmo você deve questionar a autoridade e aprender a se colocar em um estado vulnerável de mente aberta, vulnerabilidade caótica e confusa para se informar”.

Existe um apagamento do passado na internet e, principalmente, nas redes sociais, que é falso e preocupante. O processo é esquecido. Cada pessoa aparenta ter surgido já como se apresenta hoje em dia. As fotos feias e os textos ruins publicados anos antes desaparecem. Mas eles são importantes também pra lembrar o que já fomos. É de boa olhar para trás e não se reconhecer. Às vezes o passado vai nos fazer querer ser diferentes ou talvez nos lembrar de que podemos ser melhores. A questão é que isso também me reprimiu em relação a começar um novo processo, até que finalmente decidi deixar todos os posts em um subdomínio (mesmo que isso quebre todos os links dos últimos anos, que agora precisam ter um “antigo.” acrescentado antes do endereço do blog) e reiniciar o projeto aqui, com uma plataforma descente (nem as pessoas do Google devem se lembrar que o Blogger existe) e com uma organização que faça mais sentido.

Enfim, falo sozinho mas tem gente que escuta.

publicado em yo
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